EJA 1
CMVR_Outubro_2021

Paixão, Escolha, Compromisso, Entrega

Por Equipe G. Gospel em 19/09/2020 às 12:52:47

Quando duas pessoas se encontram nas arenas amorosas, se atraem e se sentem tocadas por uma graça especial, abrem-se para um movimento maravilhoso, um ardoroso anseio de viver. Com frequência se sentem incontroláveis e cegamente levadas ao outro e pelo desejo do outro. É um estado de graça e de abertura no qual tudo brilha; que muitas pessoas desejariam que fosse permanente, mas que tende a não durar, pois, na realidade, para muitas pessoas a paixão costuma representar uma intensa projeção de seus anseios mais queridos e secretos. Na maioria das vezes, apaixonar-se significa: "Você mexe muito comigo, mas eu o vejo pouco" (ou seja, vejo pouco o que você é na realidade, e vejo muito o que na realidade desejo ver). Para falar mais claramente: na paixão não vemos a outra pessoa como ela é, e sim como desejamos e esperamos que seja. E, embora seja inconsciente, acalentamos a esperança secreta de que por meio do outro os assuntos não resolvidos de nossa infância ou família de origem encontrem um caminho, e talvez uma solução. Na paixão entram em jogo, de maneira inconsciente, complexos mecanismos de reconhecimento do outro e da atração que sentimos, que têm ressonância com nossa história ou sistema familiar, além de representar uma oportunidade concreta para a união e para disparar nossas flechas criativas na corrente sanguínea da vida.

Certamente, também é verdade que na paixão se dão uma abertura e uma inspiração inigualáveis, nas quais podemos perceber a profunda beleza do ser do outro, e vê-lo cheio de seus dons e talentos. Mas, ao mesmo tempo, opera uma cegueira peculiar na qual inventamos o outro sob medida para nossas necessidades. Portanto, e paradoxalmente, a paixão pode ser graça e um enorme movimento expansivo do coração no qual vemos luminosamente o outro, e ao mesmo tempo um escurecimento, no qual inventamos o outro conforme nossas conveniências. E as duas coisas acontecem ao mesmo tempo, por mais incompatíveis que possam parecer. Seja como for, algo nos faz vibrar com essa pessoa e sentir um movimento irresistível em direção a ela. Nós nos apaixonamos, e esse ser mexe tanto conosco que é um mistério incompreensível. É verdade que a sexualidade é uma realidade avassaladora, mas há algo mais: nessa pessoa reconhecemos vibrações que vivemos em nossa infância, e de alguma forma acalentamos a esperança de completar com ela aquelas coisas que ficaram, como assuntos pendentes com nossos pais, ou de representar roteiros e tramas inconscientes de nosso sistema familiar de origem para que prossigam e encontrem solução. Essa é uma das versões habituais da paixão: "Vejo em você meus anseios, minhas expectativas, o desejo de que algo atenda, preencha e complete aquilo que não se completou em meu passado afetivo".

O que acontece com a paixão quando a relação evolui? Ela decai. Porque é um estado que, por natureza, não dura muito. Desejaríamos que durasse, porque é maravilhoso, mas é insustentável e tende a se transformar. Depois da paixão, a relação começa a significar outra coisa, algo como: "Agora estou vendo melhor quem você é, e já não mexe tanto comigo, mas o suficiente para eu o escolher e seguir um caminho comum em alguma direção (ou não, e nesse caso escolho ir embora)". Aqui, a relação com o parceiro deixa de ser um movimento incontrolável e passa a ser uma escolha, ao mesmo tempo que um olhar cada vez mais próximo da realidade de como é o outro em todas as suas dimensões e imperfeições. E com a escolha há uma aceitação: "Eu o aceito desse jeito, com sua história, seu passado, suas origens, seus vínculos anteriores, seus filhos etc. Aceito-o com seus valores, medos, estilo afetivo, emoções, feridas, talentos etc., e assumo a alegria e também o custo que implica um vínculo profundo na alma com você, e o amo assim", pois em toda relação também se paga um preço inevitável: quando escolhemos alguém para um caminho em comum, nós o escolhemos com todas as consequências, com todas as bênçãos e riscos que isso implica.

A fase, ou estado, seguinte, quando o relacionamento prospera, é o compromisso. Independentemente dos rituais e das formas que possa adotar (festas, casamentos, celebrações, ritos), o compromisso é o fruto de um processo e significa: "Agora, nosso amor, nosso vínculo e o que criamos juntos têm mais força e mais peso que nossos relacionamentos anteriores e que nossa família de origem". Esse novo sistema que criamos tem prioridade agora. E, então, o casal começa a fazer as coisas de uma maneira própria, diferente do jeito da família de cada um, e cria uma realidade própria que tem mais peso que as famílias de origem. No compromisso, duas pessoas, unidas pela sexualidade, pelo amor, pelo reconhecimento como igualmente adultos e válidos, pela decisão de compartilhar a intimidade, consolidam seu caminho em comum, fruto de terem integrado e aceitado o passado como foi, e conseguem que a energia da relação flua em direção ao futuro. Liberam suas lealdades e amarras com os relacionamentos anteriores e se abrem para um movimento próprio e criativo juntos.

Alguns casais são visitados por uma força superior, ainda maior que o compromisso: a entrega. O amor com entrega é transcendente porque é o mais generoso possível: nele se ama a vida e os fatos tal como são, despojando-os de paixões egoístas. O sentimento que impera é: "Continuo te amando, independentemente de para onde você vai, e independentemente de para onde me leve meu próprio caminho". É um amor que está em sintonia com o movimento da vida e que veremos com detalhes mais adiante, quando falarmos do relacionamento como projeto e vivência espiritual. Algumas pessoas passam a vida se apaixonando e se desapaixonando, pessoas que exploram relações e não escolhem nenhuma, que escolhem pessoas e a elas se vinculam, mas não conseguem o compromisso profundo e real necessário para que esse relacionamento tenha mais peso e força que o anterior, e pessoas que alcançam o cume do amor generoso por meio de uma entrega maior à força misteriosa que move as engrenagens das coisas.


Dr. Luis Eduardo Justiniano M.

Psicanalista Clinico, Psicoterapeuta, Hipnoterapeuta, PNL, Terapeuta Floral,

Constelador Familiar, Especialista em Dependência Química e Comportamental

Coordenador e Didata do Curso de Psicanálise (IBRAPCHS)

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