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CMVR_Setembro_2021

Se ninguém pode me fazer feliz, para que, então, um relacionamento?

Qual é, então, o sentido de um relacionamento afetivo? Para que o buscamos? O que é possível viver, oferecer, esperar e obter em um relacionamento?

Por Equipe G. Gospel em 15/08/2020 às 10:43:06

Como já expliquei em edições anteriores, uma das necessidades mais profundas dos seres humanos é a de pertencer, de estar em contato, de se sentir unido amorosamente a outras pessoas. Buscamos um relacionamento, em primeira instância, porque somos mamíferos e precisamos do toque, do calor; porque somos seres vinculares, empáticos, amorosos, generosos e necessitados ao mesmo tempo, de modo que costumamos viver em um estado de carência e de falta, e ao mesmo tempo de abundância e grandeza, e acalentamos o desejo e a esperança de dar e receber, e de encontrar, por meio do outro, um caminho de companhia e um calor existencial que nos proporcione um terreno fértil. Se fôssemos jacarés, répteis de sangue frio, nossas necessidades seriam outras, mas, para um mamífero, não há maior necessidade que fazer parte de um grupo e estar em contato com outras pessoas. Embora talvez nada nos falte de uma perspectiva espiritual, no plano das paixões humanas existe algo que precisa ser acalmado, liberado ou preenchido; precisamos encontrar plenitude em nossos relacionamentos e aplacar nossa sede de dar e receber amor. Isso nos permite transcender o eu: passar para o nós, para a união.

Quando somos crianças, experimentamos uma grande felicidade ao sentir que pertencemos a nossa família, não importa se a atmosfera é alegre ou tensa. Vivemos essa sensação de pertencimento como uma bênção em nosso coração. Depois crescemos e, como adultos, continuamos pertencendo a nossa família de origem, mas já não experimentamos a doce sensação de pertencer a nossos pais. Passamos a ter necessidade de ter essa sensação de pertencimento com outras pessoas, especialmente com um(a) parceiro(a). Ao nos comprometermos com um caminho de amor, como adultos, escolhendo um(a) companheiro(a), criamos o âmbito para um novo núcleo familiar, com filhos ou sem eles, e experimentamos de novo a sensação de pertencer a algo. Por isso esperamos do(a) parceiro(a) a tonificante sensação de nos sabermos pertencentes um ao outro; a certeza, enfim, de que estamos juntos em um caminho, pelo menos enquanto for possível. Temos direito de experimentar essa sensação de pertencimento, mas não de esperar que o(a) parceiro(a) realize todas as nossas fantasias, que aplaque todos os nossos medos, que cure todas as nossas velhas feridas. Se um pouco (ou muito) disso acontecer, ganharemos um presente, mas como expectativa será algo excessivo. E um excesso de expectativas pode sufocar o amor.

Entretanto, posto que inicia seu sentido por meio da sexualidade, um relacionamento atende as nossas necessidades de prazer, intimidade e confiança física. Com o sexo, pelo menos entre os casais, sintonizamo-nos também com o potencial de criar uma vida e, a seguir, cuidar dela, o que é vivido como concordância com o fluxo da existência natural e faz crescer em nós uma vivência de realização. Há também a necessidade de nos projetarmos. Depois de um primeiro momento, quando os membros do casal precisam olhar um para o outro, o sentido passa a ser olhar para um ponto em comum, às vezes, os filhos, ou outros projetos, gostos ou interesses em comum.

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Visto que no relacionamento justamente o que nos separa é aquilo que nos une, ele se transforma em um espaço privilegiado para nos expormos ao diferente, porque temos um gênero distinto e, se não, viemos de famílias variadas, ou de histórias, culturas, crenças, hábitos, valores diferentes. No relacionamento aprendemos a dar espaço, a respeitar o que nos parece estranho. Nesse sentido, ele nos oferece a possibilidade de crescer pela exposição ao alheio e, por conseguinte, por sua integração.

Por minha experiência como terapeuta, eu diria que o relacionamento se sustenta bem enquanto nos permite desenvolvimento e crescimento, motivação e impulso, ou seja, enquanto continua sendo interessante para nosso próprio caminho de realização e nos permite ir abrindo nosso coração mais e mais. Nesse sentido, um relacionamento é, na realidade, um vínculo profundo, mas baseado em um contrato, ou seja, uma relação contratual, condicional, diferente, portanto, da relação entre pais e filhos, que é - pelo menos em princípio - incondicional. Muitas vezes vemos que nos casais há uma espécie de contrato invisível, nunca explicitado, que os dois assinam sem saber nem reconhecer abertamente, como se dissessem, de algum modo: "Eu cuido desses assuntos, que para você são difíceis, e você cuida desses outros, que para mim são árduos". Às vezes, por exemplo, pode acontecer de a mulher dizer ao homem: "Eu cuido de que você não tenha que crescer no âmbito relacionai ou emocional, e não enfrente certos medos nesse plano"; e, às vezes, o homem diz à mulher: "Eu cuido de que você não tenha que encarar sua insegurança em relação a sua autonomia e seu valor". Há milhares de variantes por meio das quais os membros do casal, de uma forma invisível e não consciente, tentam proteger um ao outro de suas sombras e complementar suas carências. Nesse sentido, o relacionamento é um contrato, muitas vezes oculto, de ajuda, entendida como proteção diante das dificuldades. O que acontece é que, com frequência, o tempo passa, o relacionamento caminha e se desenvolve, e um dos dois - ou os dois - sente que isso já não é suficiente, que vive em uma prisão muito confortável, e que crescer e amadurecer também significa atravessar sem o outro suas dificuldades internas, ou entregar ao outro as dele. Então, pode acontecer que um dos dois - ou os dois - decida fazer uma mudança importante. Por exemplo, que ela ou ele diga: "Para mim é carga demais carregar nas costas suas dificuldades ou seus medos; não posso mais acompanhá-lo nisso e preciso me retirar". É uma tentativa de continuar ajudando o outro, mas, dessa vez, fazendo-o enfrentar suas dificuldades (e enfrentando as nossas), o que implica crescimento em forma de crise, desencaixes, atritos e, às vezes, talvez, separação.

Mais adiante falaremos do que nos separa. Agora, vamos continuar vendo o que nos une. JOANA ARRIGA


Dr. Luis Eduardo Justiniano M.

Psicanalista Clinico, Psicoterapeuta, Hipnoterapeuta, PNL, Terapeuta Floral,

Constelador Familiar, Especialista em Dependência Química e Comportamental

Coordenador e Didata do Curso de Psicanálise(IBRAPCHS)

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